quarta-feira, 19 de outubro de 2016

O que diz o novo acordo para reduzir o efeito estufa - e o que ele tem a ver com sua geladeira

Delegados de 150 países chegaram neste sábado na cidade de Kigali, Ruanda, a um acordo que tem sido descrito como "monumental" e uma grande vitória para o clima.
Seu objetivo é remover gradualmente os gases hidrofluorocarbonetos (HFCs), que são amplamente utilizados em refrigeradores, condicionadores de ar e aerossóis e são considerados muito prejudiciais para o meio ambiente.
Na verdade, em termos práticos, o acordado na conferência em Ruanda fará com que futuros refrigeradores sejam fabricados para usar menos gases que causam o efeito estufa.
De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PENUMA), os hidrofluorocarbonetos são um dos maiores agentes geradores de efeito estufa e têm uma vida atmosférica longa.
Os delegados que estão na cidade africana aceitaram uma alteração complexa do Protocolo de Montreal de 1987 que obriga os países mais ricos a reduzir a utilização de HFCs a partir de 2019.
 
John Kerry
 
O secretário de Estado dos Estados Unidos, John Kerry, que ajudou a concretizar o acordo durante uma série de reuniões, disse que foi uma grande vitória para a Terra e que estava confiante do impacto significativo na luta contra o aquecimento global.
"Este é um passo monumental que responde às necessidades das nações em particular e nos dá a oportunidade de reduzir o aquecimento do planeta em meio grau centígrado", disse Kerry em conversa com a BBC.
"Sinto-me muito positivo sobre onde nós estamos. Nós fizemos todos os cálculos e todos se sentem confiantes de que os fundamentos estão lá", disse.
"É uma grande vitória para o clima. Demos um grande passo no sentido de concretizar as promessas feitas em Paris em dezembro", disse o Comissário Europeu para a Energia e Ambiente, Miguel Arias Cañete.

Ricos primeiro

O novo acordo será composto de três padrões para diferentes países, pois o objetivo é que as nações ricas reduzam a utilização de hidrofluorocarbonetos de forma mais rápida do que as pobres:
 
Ar-condicionado
 
  • Economias mais desenvolvidas como as que integram a União Europeia e os Estados Unidos começarão a limitar a utilização de HFCs em poucos anos e a reduzir seu uso em pelo menos 10% a partir de 2019.
  • Algumas nações em desenvolvimento como a China e países da América Latina congelarão o uso de HFCs a partir de 2024.
  • Outras nações em desenvolvimento como a Índia, Paquistão, Irã, Iraque e os Estados do Golfo não congelarão seu uso até 2028.
  • China, o principal fabricante de HFCs, não começará a reduzir sua produção ou uso até 2029.
  • India começará a redução depois. Em 2032, se prevê que fará seu primeiro corte de 10%.

  • "É um dia histórico, certamente," disse Durwood Zaelke, membro do Instituto para o desenvolvimento sustentável e governabilidade (IGSD, na sigla em inglês), organismo que tem participado das negociações desde o Protocolo de Montreal.
    "Nós viemos com a ideia de conseguir a redução intermediária e vamos partir de Kingali com cerca de 90% das modificações feitas", disse o especialista.

    Comprando tempo

    Se o acordo for implementado na íntegra, vai fazer uma grande diferença no que diz respeito ao aquecimento global.
    "Os hidrofluorocarbonetos representam uma ameaça imediata para a segurança do clima devido à sua crescente utilização e alto potencial de causar o aquecimento global, que é milhares de vezes maior do que o dióxido de carbono", disse Benson Ireri, conselheiro sênior da organização britânica de ajuda
  • humanitária Christian Aid.
    "Ao acordar uma redução inicial de hidrofluorocarbonetos, estamos comprando um pouco mais de tempo para obter uma economia global de baixo carbono e para proteger as pessoas mais vulneráveis do mundo", acrescentou.

    O mercado

    Os defensores insistem que o acordo alcançado em Kigali vai ficar sobre o fundamento posto pelo Acordo de Paris, que foi assinado por mais de 190 países e entrará em vigência no início de novembro. O acordo foi firmado com o objetivo de limitar o aumento da temperatura global a menos de 2 graus Celsius.
  • Geladeira

  •  
    Também se destacam as conquistas do Protocolo de Montreal, que em seus 30 anos de história permitiu a eliminação de 100 gases fluorados.
    A premissa é que quando o regulamento for aprovado, a indústria desenvolva rapidamente alternativas.
    "O mercado vai inundar a Índia (que tem um prazo de adaptação mais longo) e isso fará com que o país faça a transição muito mais rapidamente do que tem sido planejado", disse Durwood Zaelke.
    "A eliminação gradual sempre conduziu a uma transição no mercado, levando os retardatários a se sentirem obrigados a se mover no ritmo do mercado."

    Questionamentos

    Mas alguns críticos indicam que o compromisso teria um impacto menor do que o esperado.

    Ar-condicionado

    Eles questionam as concessões dadas para Índia e China, porque elas, em sua opinião, enfraquecem o impacto global do acordo.
    "Eles precisavam chegar a um acordo aqui para que parecesse como legado de Obama. É por isso que a delegação dos EUA tem sido muito agressiva para que China e Índia a adiram ao acordo", disse Paula Tejon Carbajal, da ONG Greenpeace International.
    "É um passo na direção (redução) de 0,5 grau, mas ainda não foi alcançado. Eles dizem que o mercado vai trabalhar para nos levar até lá, mas nós não estamos lá ainda", acrescentou.
    Nas primeiras horas do sábado havia um certo sentimento de júbilo entre os delegados quando o negócio foi anunciado.
    "É muito importante o que aconteceu", disse um participante, "mas poderia ter sido maior."
    O que é o efeito estufa?
    O efeito estufa é um fenômeno atmosférico natural que mantém a temperatura da Terra, ao reter parte da energia do sol. O aumento da concentração de dióxido de carbono (CO2) a partir da queima de combustíveis fósseis levou à intensificação do fenômeno e ao consequente aumento da temperatura global, o derretimento do gelo polar e o aumento do nível do mar.

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