quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

"El Niño" e zika vírus se aliam contra o continente americano

 
As temperaturas extremas que o fenômeno "El Niño" gerou nos últimos meses acionaram os alarmes no continente americano por favorecer com altas temperaturas e umidades a reprodução do mosquito transmissor do zika vírus.
O fenômeno natural, originado em águas do Pacífico e de um poder destrutivo que pode provocar desde inundações até secas, elevou os termômetros a níveis históricos e também o temor de que seu impacto chegue ao registrado entre 1997 e 1998.
Nos Estados Unidos, as autoridades meteorológicas assinalam que a principal consequência foi um menor número de furacões no Atlântico na temporada passada, assim como o fato de que 2015 tenha sido o ano mais quente para a Terra desde que começaram os registros climáticos há 136 anos.
Na América Latina, as autoridades vincularam essa ascensão das temperaturas com as condições para a propagação do mosquito Aedes aegypti, transmissor de doenças como zika, dengue, chicungunha e febre amarela, que cresce e se reproduz em climas tropicais e áreas com água parada.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) teme que entre três milhões e quatros milhões de pessoas sejam afetadas pelo atual surto de zika na América durante 2016, razão pela qual convocou para a próxima segunda-feira um comitê para determinar se a situação se trata de uma emergência internacional.
O Brasil sofre há meses persistentes secas no nordeste e fortes chuvas no sudeste que causaram inundações e mobilizaram cerca de 220.000 soldados que reforçarão as campanhas de prevenção de doenças.
Segundo a Fundação Oswaldo Cruz, as chuvas geraram condições para a aparição de criadouros do mosquito Aedes aegypti.
No país teme-se que o zika vírus esteja associado aos quase 4.200 casos de bebês com microcefalia, doença que acarreta um crescimento deficiente do crânio nos recém-nascidos.
Na Colômbia, o mais recente boletim epidemiológico fala de um total de 16.419 casos de zika, dos quais 890 são de mulheres grávidas.
Segundo o governo colombiano, 57,5% dos casos dessas doenças foram registrados em áreas de clima tropical afetadas pelas elevadas temperaturas, que no caso da capital Bogotá chegaram ao recorde histórico de 25,6 graus centígrados.
"El Niño" também afetou com força o Cone Sul, onde as inundações deslocaram milhares de pessoas e geraram reservatórios de água propícios para a aparição de insetos.
A Argentina sofreu com as enchentes dos rios na região nordeste do país - conhecida como El Litoral -, que provocaram fortes inundações durante o último Natal e obrigaram 30.000 pessoas a receber o Ano Novo longes de suas casas.
A região nordeste é agora também a mais castigada pela dengue, com duas províncias (Misiones e Formosa, fronteiriças com Paraguai e Brasil) em situação de emergência por um "surto epidemiológico" de pelo menos mil casos diagnosticados.
O Ministério da Saúde argentino apontou que as elevadas temperaturas e as chuvas provocaram a antecipação neste ano das semanas de maior incidência da dengue, que normalmente são em fevereiro e março.
As incomuns precipitações também fizeram aumentar o volume do rio Paraguai, que alagou bairros inteiros de Assunção, onde fizeram com que cerca de 100.000 pessoas abandonassem seus lares.
O Paraguai, onde as temperaturas alcançaram 40 graus centígrados, decretou um alerta epidemiológico após registrar 4.298 casos de chicungunha desde 2015 e detectar a circulação do zika vírus em áreas fronteiriças com o Brasil.
"El Niño" mantém até agora uma intensidade forte na região andina, especificamente no Peru com um aquecimento anômalo da temperatura do mar que chega até 3 graus acima da média histórica, embora não tenha gerado chuvas.
O Equador previu o aumento na intensidade e na frequência das precipitações de forma progressiva, durante fevereiro e março de 2016, e confirmou 17 casos (nove autóctones e oito importados) de pessoas afetadas pelo zika vírus.
Na Bolívia pelo menos 15 pessoas morreram e 22.541 famílias foram afetadas pelas chuvas e a seca nos dois últimos meses como consequência de "El Niño".
Cuba viu também um aumento das chuvas durante o mês de janeiro, superiores em mais que o dobro da média histórica do mês, apesar de tratar-se da estação seca do ano.
Segundo dados do Centro do Clima do Instituto de Meteorologia, "El Niño" contribuiu para que 2015 fosse o ano mais quente em Cuba desde 1951.
Na América Central, as autoridades panamenhas responsabilizam o fenômeno pela severa seca que assola o país, uma das piores nos últimos 100 anos.
El Salvador, por sua vez, está sofrendo um aumento médio de temperaturas de 0,3 graus centígrados em virtude de "El Niño" e o volume dos rios poderia diminuir, entre janeiro e abril, até 85%.
Já as autoridades da Nicarágua disseram que não estão preocupadas pelos efeitos de "El Niño", ao contrário de produtores agrícolas e várias ONGs que mostram certo receio pelo que possa acarretar um terceiro ano com seca por causa deste fenômeno.
Na Guatemala, se estima que as famílias afetadas por "El Niño" sejam entre 150.000 e 170.000, mas se está trabalhando para implementar um plano de "contingência" em março que permita atenuar a situação, e advertiram que o impacto do zika vírus será "potencialmente muito forte" de junho até outubro devido ao aumento das chuvas.
 

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